sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O que é um mediador?

A figura do mediador aparece, por exemplo, nos debates políticos, nas mesas redondas em congressos. Sua presença garante o desenvolvimento da ação. É ele o responsável por dosar as informações dos participantes a fim de construir, pela exata soma das partes, um todo compreensível e imparcial.
Como vimos, a ação do educador não se reduz à transmissão de informações e conhecimentos, mas é ativa na construção de tramas que articulam conteúdos, mundo, vida, experiências (suas e dos alunos) num todo significante: é neste sentido que o professor é mediador.
Mediar é estar entre, no meio, o que poderia ser entendido como uma barreira, afastando pólos, colocando-os em extremos opostos - incomunicáveis, inconciliáveis.
A proposta de mediação, entretanto, é exatamente oposta. É estando no meio que se pode, mais facilmente, perceber as necessidades dos pólos e interceder no sentido de garantir um equilíbrio, uma conciliação. E como fazem os mediadores para chegar ao resultado satisfatório a todos? Consideram todas as necessidades e as respondem; exploram e aprofundam cada descoberta, garantindo-lhes sentido; e articulam todos esses aspectos segundo as especificidades da situação.
Estar entre - como propomos aqui - não é permanecer inerte, impermeável, ou seja, ser apenas “ponte” que interliga extremos, mas é interagir com as demandas dos extremos e outras tantas, construindo um todo significativo.
Responder aos estímulos, tanto do conjunto de conteúdos a ser trabalhado, dos estudantes e também do mundo no qual todos se inserem, incluindo aí variáveis que apenas o professor em sua realidade é capaz de compreender, significa cumprir, em síntese, duas operações distintas: tornar o encontro (com a obra, com a técnica, com o conhecimento, consigo próprio) potencial e articular os conhecimentos derivados desse encontro, interligando-os numa construção coletiva.
A especificidade da arte leva o professor mediador a ter que agir em diferentes “frentes”. Em se tratando, por exemplo, do aspecto contextual, uma das questões mais comuns dos professores e monitores de exposições se refere à “quantidade” de informação que deve ser fornecida ao aluno/visitante, quando frente à obra (ou sua reprodução). Essa dúvida se atém à aparente necessidade de “explicar” a obra de arte e justificar seu valor (econômico, histórico e social), para - a partir disso - estabelecer sua importância.
A relevância de um objeto para que seja considerado artístico, como dissemos acima, não está intrinsecamente nele mas no que ele significa para um determinado contexto, ou seja, é um dado a priori. A quantidade - e também qualidade - de informação a ser fornecida sobre a obra, a época em que foi feita, o artista, a técnica, o valor etc. não são dados isolados: fazem parte do todo que está sendo mediado e, portanto, tem sua “medida” derivada da flutuação das demais variáveis do processo.
Sem dúvida, é fundamental que o professor conquiste um conhecimento que o faça sentir-se seguro frente ao conteúdo a ser tratado, mas este conhecimento não deve ser usado para justificar a importância ou o valor da obra de arte, e sim para subsidiar o desenvolvimento das percepções, interpretações e reflexões sobre o objeto artístico.

Um dos exemplos claros acontece frente a obras de arte contemporânea, normalmente difíceis de aceitar pela maioria das pessoas. Para aventurar-se no desbravar da arte contemporânea, é preciso que o próprio professor mediador esteja consciente de que o que chamamos de Arte não é um único fenômeno, mas um conjunto de variadas manifestações em diferentes tempos e lugares do mundo, o que implica falta de unicidade. Por ser também histórica, ou seja, acompanhar o desenvolvimento do próprio homem, a arte muda tanto de aparência quanto de função e compreensão por parte da sociedade; assim como mudam as idéias de beleza a ela associadas.

Tentar explicar porque um bloco de gordura animal colocado sobre uma cadeira é arte (como na obra de Joseph Beuys) soará um tanto ridículo frente ao incômodo - para dizer pouco - que tal imagem oferece. Neste caso é fundamental explorar a sensação de incômodo, ir fundo nos sentimentos e sensações percebidos e, a partir disso, oferecer dados sobre a vida do artista, seu momento histórico e sua relação com os materiais artísticos, bem como sua filosofia em arte que trarão à obra mais sentido, e não justificativa.

O professor mediador em artes deverá estar atento às possibilidades de incorporação do conteúdo artístico por seus alunos, intervindo no sentido de potencializar os encontros com o objeto de arte[5] e com as instâncias envolvidas em sua compreensão. Deverá dinamizar o fornecimento de informações para que os encontros façam sentido, estimulando a reflexão sobre a percepção e a interpretação dos alunos, favorecendo a recriação do objeto (plasticamente e intelectualmente), podendo, assim, avançar em questionamentos estéticos, juízos de valor, sistemas e critérios críticos de arte.

O aluno/ visitante deve sentir-se tão confiante quanto o mediador no sentido de discorrer sobre o assunto, sabendo da importância e pertinência de seu parecer pessoal, reconhecendo que cada postura acrescenta algo significativo ao saber da arte como um todo.

Finalizando, o professor mediador encontra-se no meio da ação de educar, e aí age, garantindo a incorporação das percepções e interpretações individuais, das informações e conhecimentos (dos conteúdos, seus e dos alunos), das relações com o mundo em que vivemos, num todo articulado e significante, que amalgama o conhecimento tornado útil ao fluxo dinâmico da vida.

Retirado: www.artenaescola.org.br



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